O brilho Que Não é do Holofote

Tulio Brandão reflete sobre o atual momento de Gabriel Medina.

As recentes derrotas de Gabriel Medina têm causado muitas especulações. Foto: © WSL / Cestari.


Trabalho, diz o provérbio, é o pai da fama. A máxima do poeta grego Eurípedes poderia resumir a vida de provações e privações de Gabriel Medina. O esforço do garoto e de sua família se transformou em louros, tapas nas costas, no último troféu de campeão mundial da velha ASP e, claro, em muitos holofotes.


Acontece que, por trás das luzes da ribalta, há um público com ansiedade galopante, cuja expectativa cresce em progressão geométrica. Em seu ano mágico, Gabriel foi brindado com uma combinação de cenários especialmente favorável a uma explosão de popularidade: um país carente de ídolos, uma Copa do Mundo em que a Seleção foi humilhada em sua própria casa e o noticiário já dominado pela atual crise ética.


Todos precisavam da imagem leve de um surfista jovem e talentoso, sem qualquer traço de complexo de vira-lata, que vencia sempre com performances mágicas.


Em pouco tempo e de modo natural, virou celebridade. Transformou-se no surfista mais popular da história do país, no atleta em atividade mais procurado pela publicidade (em 2016 ficou à frente até de Neymar), em capa de muitas revistas sem qualquer relação com o esporte, em tema de reportagem especial do New York Times.


Mais que tudo, transformou-se num grande produto. Assumiu muitos compromissos, é verdade, sobretudo por ser atleta de um esporte historicamente desprezado pelo mainstream. Surfistas sempre cataram migalhas para ter espaço, talvez por isso estranhemos a agenda lotada de Gabriel. Eu estranhei, no início.


Desde que saiu do Havaí com seu primeiro título mundial, Gabriel carrega nos ombros uma obrigação de vencer com peso semelhante à popularidade alcançada. Foto: © WSL / Cestari.


Desde que saiu do Havaí com seu primeiro título mundial, Gabriel carrega nos ombros uma obrigação de vencer com peso semelhante à popularidade alcançada. Nos dois anos posteriores ao título, alternou eventos apagados, desfocados, com momentos que o levaram a brigar pelo bi, o que é digno de registro.


Em 2017, depois de um bom início, em Snapper, onde foi o melhor surfista em boa parte do evento e saiu de lá com um terceiro lugar, Gabriel teve problemas. Muita gente achou que fosse apenas uma contusão, mas a sucessão de maus resultados se prolongou mais que a dor. Parecia uma letargia, algo maior.


Não faltaram especulações sobre as razões das derrotas recentes. Charles, o pai, dominou a lista de críticas que circulam na internet – muitos comentaram sobre a pertinência da contratação de um novo técnico. Falou-se também de outros supostos problemas, como dedicação insuficiente ao Havaí, desajuste com as pranchas, excesso de compromissos comerciais e até amizades do surfista com celebridades brasileiras, entre os quais Neymar e Luciano Huck.


Diante dessas indagações, fui cobrado a dar meu ponto de vista, na condição de autor do livro sobre a história da vida do surfista. Justo.


Deixei a convivência com a família, intensa no tempo que tive para produzir as entrevistas, com uma certeza particular: Charles é o pilar, o motor de tudo de bom que aconteceu com Gabriel e seus pares próximos. Ele ajudou a forjar, com métodos pouco convencionais e muito trabalho, uma ideia vencedora para todos os Medina, especialmente para seu pupilo e atleta.


Para Tulio Brandão, Charles é o pilar, o motor de tudo de bom que aconteceu com Gabriel e seus pares próximos. Foto: WSL / Poullenot.


No tempo em que estive na casa, no início de 2015, um dia comum de Charles era de trabalho quase obsessivo. Organizava, planejava as viagens, estudava pranchas, avaliava os movimentos de seu surfista, discutia o treinamento de Gabriel com preparadores físicos e médicos. Não sobrava espaço para mais nada. Ali, naquele momento, era difícil pensar em alguém mais produtivo.


Do início de 2015 até hoje, o histórico de dedicação de Charles não o eximiu de cometer erros estratégicos, como o de Portugal, ano passado, quando Gabriel treinou numa praia em que não mais seria realizado o evento. Ou o da final da França, também em 2016, quando deixou o esforçado Keanu Asing no melhor pico do dia.