As Novas Caras do Big Surf Brasileiro


Sangue nos Olhos: Pedro Calado, Lucas Silveira, Lucas Chumbinho, Lapo Coutinho, Pedro Scooby e Felipe Cesarano


Eles prometem cruzar mais uma fronteira brasileira da nova ordem mundial do surf: dominar a cena das ondas gigantes


“Hoje, os surfistas de ondas grandes têm talento. Por isso vejo com bons olhos o caminho para essa nova geração do Brasil.” Carlos Burle, 48, mistura otimismo e apreensão quando reflete sobre o futuro do big surf brasileiro. Otimismo porque o sangue novo chega em um momento-chave do esporte. Apreensão porque a economia brasileira pode ser um empecilho durante o desenvolvimento dos surfistas.


O pernambucano enxerga uma bifurcação na estrada do big surf. “Um caminho é o freesurf tradicional, com o espírito do waterman, aloha, do respeito às tradições, à relação espiritual que temos com o esporte”, observa. “O outro é o profissional, de competição, que sustenta o esporte e cria um ambiente mais justo e com mais reconhecimento para quem se destaca.”


Atualmente, metade dos 24 competidores nas etapas do Big Wave Tour são convidados – o que vira e mexe gera polêmica. Mas a World Surf League, segundo Burle, já abraçou a ideia de instalar um sistema mais justo, que deve ser anunciado em breve. Um circuito paralelo formaria a elite, nos moldes da relação entre QS e WT. Isso não só promete impulsionar a visibilidade do big surf como também enche a nova geração brasileira de esperança, com melhores perspectivas para construir uma carreira profissional no esporte.


Conheça a história, os pontos altos, os perrengues, os desafios e os sonhos de Pedro Calado, Lucas Silveira, Lucas Chumbinho, Lapo Coutinho, Pedro Scooby e Felipe Cesarano, membros de uma talentosa e heterogênea geração, no big surf.


Pedro Calado


"É estranho. Tenho 20 anos e já me sinto respeitado no big surf”, observa Pedro. “Quando os caras me veem remando, sabem que eu vou, que não puxo o bico em cima da hora.” Ele diz que “de pouco em pouco” tem conquistado seu espaço; sua ascensão, na verdade, tem sido meteórica – ele foi finalista da categoria Performance do Ano do XXL 2016.


Em 15 de janeiro, auge do El Niño, Calado roubou a cena ao dropar a bomba cotada entre as maiores já surfadas na remada em Jaws, que arrisca 50 pés de face e indicado à categoria Paddle do XXL. Boiava por uma hora e meia no outside quando a esquerda despontou. Bem posicionado, remou com toda sua força e desceu a ladeira. Na base, drop completo, tentava botar no corte no momento em que viu o espesso lip o envolver num turbilhão de espuma. Não à toa, emplacou sua primeira capa de revista, na HARDCORE de março. “É o ápice da minha carreira por enquanto.”

Na infância, Calado se amarrava em competir, mas raramente se dava bem com a pranchinha. Decidiu estudar e surfar só por lazer. Até conhecer Felipe Cesarano. Em uma promoção, “Gordo” conheceria e entregaria um kit para quem, com até 16 anos, enviasse a melhor foto de surf. Calado ganhou e a relação entre os dois reacendeu o instinto big rider que descansava em Calado desde que ele caíra, aos 14 anos, com uma gunzeira emprestada, em um mar grande em Kon-Tiki, Peru. “Por causa do Gordo virei big rider.”


Gordo convenceu os pais de Calado a bancarem a passagem do filho para a temporada havaiana de 2014/15. Logo na primeira semana caiu em Jaws, em 21 de janeiro. De backside, botou para dentro de um tubo para a direita e rodou com a parede.


Na volta ao Brasil, descolou patrocínio da Furnas e logo foi atrás de um swell gigante em Puerto Escondido, México. Literalmente se jogou na maior onda já vista por lá, em uma sessão de remada, em 3 de maio, finalista do Wipeout do Ano do XXL. Embicou no drop no maior perrengue que já passou. “Saí quicando na onda, ela me engoliu e fiquei um tempão embaixo d’água. Achei que ia morrer. Por sorte, consegui encostar no chão e subir pra superfície.”

Para melhorar a performance nas ondas grandes, Calado e Gordo iniciaram, em outubro, um treinamento que mistura tiros de natação com apneia. “A preparação física fortalece o psicológico. Você se sente mais seguro dentro da água”, observa o carioca, que também pratica yoga. “O segredo é a continuidade, treinar toda semana, para ficar sinistro.” Com isso, Calado evitou que a porradaria após ser absorvido por Jaws, nesta temporada, se transformasse em pesadelo.


O caçula da nova geração tem vários sonhos. Pegar um tubão enorme em Puerto. Estrear em Maverick’s. Desbravar um secret gigante do Chile. Encarar Nazaré. Seu maior objetivo, no entanto, é competir o Big Wave Tour. “Fica difícil, porque o evento é só para convidados.” Mas o sonho de moleque de ser um bom competidor ressurgiu com a história da divisão de acesso para a elite do BWT. Por isso, também tem aprimorado o mental e a técnica, até mesmo nas marolas, nas quais sente lapidar sua linha na onda. “Estou louco para ser convidado para uma etapa do Tour e ver como vou me sair.”

Foi em 24 e 25 de junho que Pedro Calado estreou no BWT. Garantiu o wildcard pela indicação no Performance do Ano do Big Wave Awards 2016. O carioca impressionou. Não hesitou ao botar para baixo nas cracas que superavam 35 pés. A atitude lhe rendeu high scores e a terceira colocação. Nas três baterias que disputou até a final, Calado dividiu o lineup com Carlos Burle, o quarto melhor do evento. Os Brazilian Nuts, como se intitula essa atual geração de big riders brasileiros, chegaram para fazer história.


Lucas Silveira


Desde pequeno, Silveira almejava surfar bem, da marola às ondas grandes. Desde os 11, surf trips internacionais o ajudam a lapidar a linha em mares perfeitos. Mas, aos 13, o vulcão da sua relação com o big surf entrou em erupção.


Era 2009. As condições em Waimea não aparentavam estar exorbitantes, então tudo indicava que seria uma sessão igual as que fez em anos anteriores. Contudo, após pegar algumas ondas, entrou uma série gigante que fechou a baía. “Todo mundo que estava no mar tomou na cabeça”, recorda o carioca, hoje com 20 anos, sobre uma época em que o colete inflável ainda não existia. “Foi tipo um avanço no big surf para mim. Vi que aguentava bastante sufoco e fiquei com vontade de encarar ondas cada vez maiores.”


Aos 17, Lucas deu um passo à frente no sonh